Discurso de Lorenzo Caraffi para a abertura da mostra fotográfica “A Falta que você faz”

17/05/2017 Internacionais Por: Comitê Internacional da Cruz Vermelha

É difícil imaginar a dor que sofre uma pessoa quando um familiar desaparece. É difícil imaginar um cotidiano de incertezas, a necessidade de obter respostas e o dano produzido pelas esperanças e expectativas frustradas.

A dor e o sofrimento de um familiar sem respostas sobre o paradeiro de um ente querido é um que desconhece fronteiras ou diferenças culturais. Seja no Brasil ou em qualquer país do mundo, o desaparecimento de uma pessoa significa angústia para as famílias que buscam e aguardam por ela.

É um processo que, geralmente, leva muitos anos, nos quais as famílias não deixam de manter a esperança de encontrar seu ente querido, apesar das enormes dificuldades.

Não à toa, esta é uma preocupação reconhecida pelo direito internacional.

Em todo o mundo, centenas de milhares de pessoas desaparecem e, infelizmente, esse número cresce a cada dia. No CICV, definimos “pessoas desaparecidas” como indivíduos cujo paradeiro é desconhecido pelas suas famílias ou que foram dados como desaparecidas, segundo fontes fidedignas, devido a um conflito armado, violência interna, desastre natural ou outras crises humanitárias.

Além das estatísticas, cada história de desaparecimento é um universo. As pessoas desaparecidas têm nome e sobrenome. Trata-se do João, do José, da Fabiana. Por trás de cada nome, encontramos uma família e amigos que buscam sem cessar por informações. É um ciclo triste de buscas, esperanças e frustrações que às vezes perdura por décadas e não leva a resposta alguma.

Senhoras e senhores,

A escala real do problema do desaparecimento é desconhecida e cronicamente ignorada. Se estiverem vivas, as pessoas desaparecidas precisam ser localizadas. Se estiverem mortas, os seus restos mortais devem ser buscados, tratados da maneira adequada, identificados na medida do possível e entregues aos entes queridos, se eles assim o desejarem.

As famílias têm o direito de saber o paradeiro e o que aconteceu com seu ente querido. Precisamos acabar com o silêncio em torno desse problema.

Segundo o direito internacional, os Estados têm a obrigação de prevenir que as pessoas desapareçam; precisam buscar e localizar as pessoas desaparecidas e adotar uma reposta integral em relação às necessidades dos familiares. Não é uma tarefa fácil, mas é um caminho que precisa ser percorrido. É preciso da mobilização das autoridades e da sociedade para dar essas respostas.

Saber é um direito. Os familiares têm o direito de saber o destino e o paradeiro do seu ente querido.

Nós, do CICV, não nos eximimos da nossa responsabilidade. Com base na nossa trajetória de mais de 150 anos de ação humanitária, protegendo e assistindo vítimas de conflitos armados e outras situações de violência, nós nos esforçamos para identificar e compreender as necessidades dos familiares de pessoas desaparecidas. Com isso, podemos apresentar às autoridades recomendações que lhes permitam oferecer respostas mais adaptadas e pertinentes, e também fortalecer a capacidade estatal para esclarecer o paradeiro das pessoas desaparecidas por meio de assessoria e treinamento, além de prestar apoio aos familiares durante o doloroso processo de busca.

Durante nosso trabalho aqui no Brasil, tivemos contato com várias famílias. Em cada uma delas, um universo de histórias. Em cada uma das suas casas, encontramos lembranças: uma cadeira vazia, um quarto à espera da volta daquele familiar cujo paradeiro é desconhecido. Cada família lidando com essa angústia de uma maneira diferente.

Senhoras e Senhores,

Como traduzir em imagens a dor de famílias arrasadas pela ausência de um ente querido e garantir, ao mesmo tempo, a dignidade das pessoas? Como fotografar o vazio e a insegurança gerados pelo desaparecimento de um familiar, as marcas que esse trauma deixa, e ainda capturar a força e a resiliência dessas pessoas para enfrentar o problema e continuar em sua busca pela verdade?

Foi com o olhar empático e afetuoso que a fotojornalista Marizilda Cruppe realizou uma série de retratos de familiares de pessoas desaparecidas no Brasil. Entre agosto de 2016 e março de 2017, Marizilda visitou residências em Curitiba, Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo, onde ouviu as histórias de pais, filhos, avós e tios de pessoas que desapareceram sem deixar bilhetes de despedida. Em geral, as casas dos familiares são espaços com uma grande carga emocional e relação com as histórias dos desaparecidos. Ao visitar esses lares, Marizilda pôde se aproximar dessas pessoas e entender em grande medida a extensão e o impacto do desaparecimento sobre os que ficam à espera de uma notícia.

O tema dessa exposição é grave, mas é absolutamente necessário. Acabar com o silêncio em torno do assunto é um primeiro passo para que cada vez menos famílias tenham de viver com a ausência.

Muito obrigado.

Link para a versão original: https://www.icrc.org/pt/document/discurso-abertura-da-exposicao-fotografica-falta-que-voce-faz-brasilia

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